Com a santificação de Nuno Álvares Pereira, nos primeiros dias de Maio, toda a burguesia portuguesa – da beata e salazarenta à liberal e modernaça – aproveitou para dar um pouco de lustro ao embaciado orgulho pátrio.
Em mais uma demonstração de provincianismo, o parlamento aprovou um voto de congratulação. Depois, noutra daquelas estranhas unanimidades nacionais, todos começaram a enaltecer a beatice e o suposto despojamento do Condestável no que se refere aos bens materiais – o que não o impediu de se ter tornado o português mais rico e poderoso da altura e o fundador da casa real que viria a governar Portugal após a Restauração – e a vender a ideia de que, sem ele, agora seríamos espanhóis. Nem faltaram “estudiosos e biógrafos” a estabelecer imbecis paralelos entre Salgueiro Maia e Álvares Pereira, que “generosamente” deixaram a política aos políticos depois de, pelas armas, viabilizarem uma nova ordem política e social.
É sintomático que 35 anos após o 25 de Abril ainda se continue a pensar de forma tão unânime que a história é feita por heróis providenciais, como nos ensinava o salazarismo, e não pelos conflitos sociais e políticos. Interessa reter que Álvares Pereira foi o produto das limitações de uma revolução, em vez de nos determos nas tretas da cura milagrosa de uma mulher que passou a ver depois de, cheia de fé, se ter abraçado à estátua do Condestável, ou nas perorações sobre a “ética republicana” evocada pelos muito escassos “socialistas” incomodados pelo voto da Assembleia da República.
Em 1383, quem se levantou contra a anexação de Portugal por Castela foi a burguesia nascente, principalmente de Lisboa e Porto. Não foi a classe feudal dominante, constituída pelos nobres e o alto clero, que não só defendia o direito do rei de Espanha ao trono de Portugal, como combateu ao seu lado.
A revolução de Lisboa marca a entrada da burguesia portuguesa na história, ainda que sem um projecto de poder para si, e por isso obrigada a encontrar na baixa nobreza o seu aliado estratégico e a dar-lhe de mão beijada o poder. Mas foi ela o motor da revolta e, com as suas associações profissionais e de artesãos, foi quem determinou o rumo dos acontecimentos, mobilizando o povo para resistir ao cerco da capital pelos espanhóis, assaltando a Sé de Lisboa, defenestrando o cardeal e criando o primeiro parlamento onde teve assento (aquilo a que, séculos mais tarde, a Revolução Francesa haveria de chamar “Terceiro Estado”).
Aí se escolheu o futuro rei (D. João) e o chefe militar (Nuno Álvares Pereira), selando-se desta forma a aliança com as camadas da baixa nobreza, constituída principalmente por bastardos – filhos dos nobres, feitos fora dos casamentos oficiais, e portanto sem direitos na hierarquia feudal e acesso aos privilégios da corte.